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Prêmio Roquette Pinto: da literatura Machadiana para as frequências do rádio

Contos de Machado de Assis, um dos maiores nomes da literatura brasileira, foram utilizados pela Rádio UFOP para a produção da série “Pequenas Histórias Machadianas”, que ganhou o Prêmio Roquette Pinto, no ano de 2009. O concurso promovido pela Arpub - Associação de Rádios Públicas do Brasil, tinha como objetivo incentivar e financiar rádios universitárias e públicas a criar conteúdos, com o subsídio de R$20.000,00 como prêmio para custear as produções.

Os programas vencedores foram veiculados pelas emissoras públicas associadas à Arpub e ficaram à disposição para transmissão em rádios não comerciais. Foi um momento importante para a emissora, que até então, com 12 anos no ar, nunca havia investido na produção de rádio-dramaturgia. A série foi idealizada e produzida por Thiago Carvalho Meira e Mariana Zippinotti Costa Usbert, ambos locutores na época e graduados em Artes Cênicas pela UFOP.

Devido à sua formação, Thiago Meira explica que foi incentivado por Ady Carnevalli, coordenador da Rádio UFOP naquele tempo, a fazer um programa em formato de rádio-teatro. Segundo Meira, os direitos autorais sob as obras de Machado de Assis haviam acabado de ser liberados como domínio público, e foi dessa oportunidade que surgiu a proposta do programa.

A partir disso, os produtores selecionaram 12 contos do escritor e os adaptaram para a linguagem de rádio, que geraram o mesmo número de episódios, cada um com 30 minutos de duração. Entre eles estão “O Alienista”, “O Espelho” e “A Cartomante”. Datados do século XIX, possuem uma mistura de desejos, mistérios, dúvidas e inquietações.

Para atuar, foram convidados dois alunos de Artes Cênicas, Alexsandre Carvalho e Débora Rocha, que se revezavam entre os papéis. Mariana Zippinotti foi a responsável pela parte da adaptação, o que mais demandou tempo de produção, e também da narração dos contos. Meira, além de criar e produzir o programa, também atuou.

A trilha sonora da série foi criada por um bolsista da rádio, Rodrigo Enoque, que cursava música. Ele trouxe como proposta a música eletrônica e misturou Machado de Assis com o estilo musical contemporâneo. A trilha percorre por todo o capítulo, cria um clima de envolvimento e ambientaliza o ouvinte sobre a produção. As histórias são contadas intercalando a narração e as falas dos personagens. No final de cada programa, a professora do curso de Letras da UFOP, Elzira Divina Perpétua, especialista em literatura, comenta o conto que havia sido encenado, trazendo questões contemporâneas ou históricas de Machado de Assis. A produção completa dos 12 contos durou pelo menos 6 meses. Confira na guia Podcast.

Curiosidade

Thiago conta uma história interessante sobre o prêmio Roquette Pinto: “Foi até engraçado porque a gente estava muito apertado na época, a rádio estava passando por diversos problemas, estávamos resolvendo problemas de transmissão. Chegou no último dia para entregar e eu enviei o projeto por e-mail e um projeto também pelos correios. E quando eu mandei para o correio daqui, eles falaram que não iria entregar lá no dia, ia atrasar, e ele falou isso depois que eu já tinha postado. Ele disse ‘não vai dar pra entregar hoje não’. Por isso a gente desencanou: ‘ah, não deu, pelo menos tentamos’. Passamos a não acompanhar no site. Depois de um mês e pouco recebi um e-mail falando ‘vocês têm tal dia para mandar essa documentação, vocês foram selecionados’. Fiquei sem saber: ‘Uai, como assim?’. Mandei o e-mail para os coordenadores para eles verem se era aquilo mesmo. E realmente o projeto tinha sido selecionado. Então fomos atrás da documentação e a partir daí a gente esperou um tempo para eles mandarem parte do dinheiro. Assim que recebemos, a gente começou a produção. Depois que a gente entregou, eles mandaram a outra parte do dinheiro.”

Machado de Assis

Filho de Francisco José Machado de Assis e Leopoldina Machado de Assis, Joaquim Maria Machado de Assis, neto de escravos alforriados, nasceu pobre e foi criado no Morro do Livramento, no Rio de Janeiro. Trabalhou como aprendiz numa tipografia aos 16 anos e publicou seus primeiros versos no jornal “A Marmota”. Foi convidado por Quintino Bocaiúva para colaborar no “Diário do Rio de Janeiro”, em 1860.

Dez anos depois, publicou os poemas “Falenas” e “Americanas”, além dos “Contos Fluminenses” e “Histórias da meia-noite”. Seus méritos de escritor foram consagrados pelo público e pela crítica.

A obra de Machado de Assis passou por uma revolução, em estilo e conteúdo, em 1880. Inaugurou o Realismo na literatura brasileira com os romances “Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), “Quincas Borba” (1891), “Dom Casmurro” (1899) e alguns contos como "Papéis avulsos" (1882), "Histórias sem data" (1884) e "Várias histórias" (1896). Com um espírito crítico, grande ironia, pessimismo e uma reflexão sobre a sociedade brasileira, Machado de Assis deixou suas marcas mais características.

O escritor fundou a Academia Brasileira de Letras em 1897 e foi o primeiro presidente, ocupando a cadeira número 23. A instituição também ficou conhecida como a Casa de Machado de Assis. O escritor e político brasileiro, José de Alencar, foi seu patrono, amigo e admirador. Depois que sua esposa morreu em 1904, ele raramente saía de casa e sua epilepsia piorou. Problemas nervosos e uma gagueira contribuíram ainda mais para seu isolamento. Foi quando ele escreveu seus últimos romances: "Esaú e Jacó" (1904) e "Memorial de Aires" (1908), que fecham o ciclo realista iniciado com "Brás Cubas".

Morreu em sua casa na rua Cosme Velho, no Rio de Janeiro, no dia 29 de setembro de 1908. Um luto oficial foi decretado na cidade e seu enterro foi acompanhado por uma multidão, o que confirma a fama que o autor alcançou.

Prêmio Roquette Pinto

O Prêmio Roquette Pinto contou com a parceria do Ministério da Cultura, por meio do Programa Nacional de Apoio à Cultura e da Petrobrás. Ao todo foram contemplados 40 projetos em todo o país, nas áreas de rádio-dramaturgia, rádio-documentário, rádio-arte ou experimentações sonoras e programas infanto-juvenis. Em Minas Gerais, além da Rádio UFOP Educativa, foram contempladas as emissoras vinculadas à UFV e à UFMG e o Instituto Imersão Latina.

Redação: Karine Bibiano 17/08/2017     

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